O Que é Arte?
Essa pergunta gera muita polêmica, por que o conceito de arte é muito amplo.
A arte tem diversas utilidades dês da antiguidade: Para ter conexão espiritual, comunicar, demonstrar poder, como entretenimento, como forma de protesto político, ou simplesmente como decoração.
Antigamente, arte era considerada apenas um ofício. A própria palavra deriva do termo Ars, que significa “fazer”. A arte não era separada do artesanato, por que dependia mais da técnica do que exprimir uma ideia.
Essa separação do que seria uma arte mais trivial do que uma arte mais elevada se dá na Grécia: filósofos como Platão e Aristóteles e outros clássicos diziam que artes como poesia, e teatro eram melhores do que pintura e escultura, por exigirem menos esforço físico.
Antes do cristianismo, pela filosofia, já havia indícios de que existia uma super valorização do metafísico em detrimento do material. E isso infelizmente gerou um elitismo entre algo conceitual e algo mais decorativo que vai ser mais discutido mais para frente.
Para início de conversa, o conceito geral de arte que temos hoje é majoritariamente ocidental. A arte pode ser definida de várias maneiras: uma linguagem, um conjunto de técnicas, uma forma de expressão..., mas definir se algo é ou não arte depende de quem o observa, como o observa e de que forma aquela definição lhe convém.
Explicando melhor, o conceito de arte varia de acordo com a cultura e o contexto de um ambiente. George Coli em “O que é arte?” comentou sobre um episódio em que ele se distraiu com as histórias em quadrinhos do irmãozinho dele, e depois, viu uma coletânea de quadrinhos do Stan Lee na prateleira de um amigo curador de museu e considerou Stan Lee como artista, sendo Hqs bem estigmatizadas no meio das belas artes.
Dês de que houve essa separação entre coisas elevadas e eruditas de triviais e “profanas”, além da divisão entre classes, há um elitismo em qual forma de criação é verdadeiramente arte. Mas vejamos, um objeto pode ser considerado arte através do seu discurso e para quem interessa esse discurso.
E como vivemos em uma sociedade ocidental, devido o colonialismo, aquilo que pode ser considerado arte transpassa por um olhar predominantemente ocidental, principalmente um olhar branco e masculino.
Vários teóricos vão discutir sobre isso, um deles é Linda Nochlin em “Por Que Não Existem Muitas Mulheres Artistas?”, ela fala especificamente do recorte de gênero, afirmando que existiam sim, mulheres artistas contemporâneas a grandes nomes como Caravaggio ou Picasso. MAS, essas mulheres nunca foram relevantes para as instituições, por que quem está na elite intelectual da arte (museus, galerias, academia) são homens brancos, e esse recorte de gênero nunca interessou a eles.
De fato, o Ocidente é patriarcal, e as mulheres brancas tiveram sim uma dose de opressão da sociedade pelo seu gênero. Mas lembremos: assim como mulheres brancas foram excluídas do meio erudito da arte, pessoas não brancas também foram (e ainda são) excluídas desse meio.
Usando de exemplo as cabeças de bronze de Ifé, elas provavelmente tem algum fundamento espiritual e foi inserido no Museu Britânico tirada de contexto e significado. Inclusive, durante os séc XIX e XX, com a eugenia racial, foi criado um discurso de que a África teria sofrido influência da Europa na criação de arte, pois não se acreditava que negros seriam capazes de fazer algo realista. Antigamente, para o ocidente, tudo que se aproximasse da verossimilhança da arte clássica era o ápice da arte. Até hoje, algumas pessoas pensam que arte de verdade tem que imitar o mundo real.
Perceba que, nesse exemplo citado, e lembrando que a Europa se apropriou de muitos objetos religiosos e decorativos de outros povos e os catalogou como arte ou não, tudo foi apropriado pelos brancos para reforçar um discurso. A arte moderna se despojou desse realismo e deu valor a outras maneiras de representar o mundo ou de influenciar a visão através das formas, mas artistas como o Picasso se “inspiraram” na arte Africana como se ela fosse algo pueril, até infantil mesmo, por causa dessa afirmação de que arte clássica era superior, como forma do se humano voltar a sua “pureza” primitiva.
Além da cultura definir o que é arte, teóricos da arte, críticos, professores e curadores podem definir o que é arte pelo apelo de autoridade, isso pode ser excludente, de forma proposital ou não. Por isso, o discurso do que pode ou não ser arte é perigoso, pois supostamente pode dar brecha à lavagem de dinheiro, ou a retaliações, nem todo o recorte é feito de forma inocente, mas devemos acreditar que muitas instituições hoje em dia se esforçam para sair dessa hierarquia branca e europeia, nem todos agem de má fé.
Claramente, o artista também pode definir se o que ele faz é arte ou não, antigamente, quando arte era apenas delimitada pela técnica, a figura do artista não era tão relevante, mas com o passar dos anos, principalmente no renascimento, o artista se configurou em uma figura de relevância, existe o mito do artista gênio, que infelizmente infla o ego de vários indivíduos durante a história.
De qualquer forma, houve uma separação entre arte erudita e artesanato, por que a partir de um momento, apenas a técnica (luz, sombra, composição cores e etc.) não era mais o suficiente, a arte tinha que ter uma intenção e um significado. Claro que, do Renascimento, até aproximadamente o neoclassicismo, a técnica era tão importante quanto a intencionalidade. A importância da intencionalidade foi debatida por diversos teóricos, inclusive Roland Barthes, que diz no seu texto “A Morte do Autor”, que o significado de uma obra vai além da intencionalidade do artista.
Veja bem, um artista pode até criar um conceito para uma obra, mas além da intenção dele há todo um recorte cultural e a interpretação de quem observa a obra, que pode ver outros significados além do artista.
Agora, um artista que mexeu com a ideia do que deve ou não ser considerado arte foi Duchamp, muitos conhecem o seu clássico urinol exposto em NY. Duchamp utilizou um objeto banal, feito de forma industrial (e não à mão) que serve para depositar excrementos, a parte menos nobre do ser humano, para criticar o elitismo no meio das instituições de arte. Um objeto diário foi transformado em arte por causa que o artista o definiu como tal e isso tornou o conceito de arte mais subjetivo ainda, até os dias atuais.
Alguns artistas modernos e contemporâneos, dês desse marco - pelo menos os que expõem em museus – procuram criar artes com materiais que se deterioram rapidamente, ou performances específicas para tais exposições, que não podem ser replicadas. Isso seria uma forma das instituições não reterem seu exclusivismo sobre as obras. Embora, segundo Jorge Coli, alguns museus registrem as obras em mídias digitais e distribuam para pessoas específicas.
Recapitulando, o conceito de arte é subjetivo, ele depende de quem afirma que tal coisa é ou não arte, e vai de acordo com os interesses do discurso, e dependendo de quem domina o discurso, isso pode ser inclusivo ou excludente.
Van Gogh só foi reconhecido como artista depois de sua morte, pois o que ele produzia enquanto era vivo não correspondia aos interesses da elite daquela época, e hoje, a arte dele é comercializada e traz lucro a esses mesmos museus.
Há também a problemática da arte gerada por IA, segundo o livro “Inteligência Artificial Para Leigos”, de Jhon Mueller e Luca Massaron, a Inteligência Artificial não possui o mesmo nível de inteligência que um ser humano, e ela sobrepõe diversas imagens e sons e faz uma colagem com elas, então, a IA não seria capaz de produzir arte. Mas será que no futuro, esse conceito pode mudar? Isso só será respondido com o passar do tempo.
Referências:
MULLER, JOHN PAUL. Inteligência Artificial Para Leigos.
COLI, GEORGE. O que é Arte?
TOSTOI. Oque é Arte?
NOCHLIN, LINDA. Por Que Não Existem Grandes Mulheres Artistas?
BARTHES, ROLLAND. A Morte do Autor.
TIO VIRSO. O Que é Arte?

